Blog do Godofredo

Confesso que jamais tive, em toda a vida, um único pensamento politicamente correto. A tal correção política, que eu prefiro chamar de corretagem da politicalha, nada mais é do que a hipocrisia declarada e sem rodeios, o racismo disfarçado de tolerância, a cretinice assumida e a mentira conveniente.

Querido leitor, se você tiver alguma contribuição, por favor, este Blog conta com a sua ajuda. Só não vale chinelagem, como chamar alguém de viado ou vagabunda, nem manifestações racistas, nem pagode.

Ajude-me a desmascarar esta gentalha!

sexta-feira, 4 de março de 2011

Inútil canto e inútil pranto pelos anjos caídos

Quando vejo aqueles indiozinhos maltrapilhos cantando suas músicas típicas na Rua da Praia não posso deixar de me lembrar do livro "Inútil canto e inútil pranto pelos anjos caídos" do Plínio Marcos.

Nada a ver com os últimos momentos da vida de 25 homens enclausurados numa cela de presídio, e que morrem queimados durante uma rebelião (tema do livro) - mas a analogia é brutal: meia dúzia de crianças enclausuradas numa cultura sem futuro. Claro que os últimos instantes deles não serão devidos a um incêndio, nada tão rápido assim.

Não haverá tiro de misericórdia.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A filosofia do camelo

Uma mãe e um bebê camelo, estavam por ali, à toa, quando de repente o bebê camelo perguntou:
— Por que os camelos têm corcovas?
— Bem, meu filhinho, nós somos animais do deserto, precisamos das corcovas para reservar água e por isso mesmo somos conhecidos por sobreviver sem água..
— Certo, e por que nossas pernas são longas e nossas patas arredondadas?
— Filho, certamente elas são assim para permitir caminhar no deserto. Sabe, com essas pernas longas eu mantenho meu corpo mais longe do chão do deserto que é mais quente que a temperatura do ar e assim fico mais longe do calor. Quanto às patas arredondadas, eu posso me movimentar melhor devido à consistência da areia! - disse a mãe.
— Certo! Então, por que nossos cílios são tão longos? De vez em quando eles atrapalham minha visão.
— Meu filho! Esses cílios longos e grossos s ão como uma capa protetora para os olhos. Eles ajudam na proteção dos seus olhos quando atingidos pela areia e pelo vento do deserto! - respondeu a mãe com orgulho.
— Tá. Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos do deserto. Então o que é que estamos fazendo aqui no Zoológico???

Moral da história: Habilidade, conhecimento, capacidade e experiências, só são úteis se você
estiver no lugar certo.

(autor desconhecido)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Lenda do Cavalo e da Cenoura

Era uma vez, numa terra muito, muito distante, um gestor, que estava encarregado de fazer um cavalo puxar uma certa carga por um determinado percurso, de forma a que o tal cavalo produzisse o máximo possível no menor tempo. Um simples algoritmo de otimização, nada mais do que isto. Tempos e movimentos, taylorismo. O gestor sorriu diante da facilidade da tarefa.

Ora, o cavalo não via o menor sentido naquela história, pois nada ganhava com o seu próprio esforço. O gestor, percebendo a relutância do seu semovente, resolveu ajudá-lo a melhor elaborar a sua tarefa cavalar. Tentou de tudo: palavras de estímulo, poesias, pensamentos inteligentes, religiosos e de amor, reflexões, receitas da felicidade e da paz, frases de otimismo, auto-estima, apoio, sabedoria, quiropraxia, terapias alternativas, florais, regressão a vidas cavalares passadas, metafísica e até um psicólogo eqüino.

Não resolveu, o cavalo continuava não vendo sentido naquela atividade, e o gestor não entendia por que o cavalo não queria, voluntariamente, fazer o trabalho. O que estaria acontecendo? Será que a auto-estima do cavalo estava baixa?

Aí resolveu matricular o cavalo em um curso de motivação. E lá foi o pobre quadrúpede assistir a palestra de um fulano que gesticulava e urrava alucinadamente, com música alta, enquanto as pessoas se comoviam, choravam, riam, se abraçavam e coisa e tal. E o cavalo achando aquilo muito estranho, pois o irracional era ele...

Voltou, sentou e foi fazer palavras cruzadas, que é o que sempre fazia (era um cavalo letrado). Nada de puxar aquela carga, por que faria isto sem ganhar nada em troca? (pensava o cavalo letrado).

Aí o gestor, mestre em estatística, sociologia do trabalho e doutor em administração das organizações, foi ouvir uma velha cigana, que lhe recomendou que amarrasse uma cenoura na ponta de uma vara comprida e a amarrasse ao cavalo, de forma a fazê-lo correr para tentar comer a cenoura, mas que a cenoura ficasse fora do alcance, senão o cavalo a comeria e não teria motivo para continuar correndo.

E não é que funcionou? O pobre cavalo começou a correr feito louco atrás da cenoura, para ver se conseguia abocanhá-la. Quanto mais corria, mais a cenoura se aproximava da boca dele, e mais ele corria, e mais a cenoura se aproximava da boca, e assim por diante. E, por um certo tempo, o cavalo foi mantido na produtiva ilusão da cenoura.

Aí o cavalo percebeu que, por mais que corresse, apenas conseguia diminuir a distância da cenoura, mas jamais conseguiria abocanhá-la, nem mesmo tocá-la com a ponta da sua língua.

Voltou a fazer palavras cruzadas, pois era um cavalo letrado, e o gestor jamais entendeu o que tinha ocorrido.

Moral da história: se você é gestor de cavalos, deixe que eles ganhem uma cenoura de vez em quando. Talvez funcione da mesma forma com humanos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Estudantes americanos acham que Beethoven é um cachorro

Washington - A maioria dos americanos que está prestes a entrar na universidade não consegue escrever em letra cursiva, acha que o e-mail é lento demais, que Beethoven é um cachorro e Michelangelo, um vírus de computador, revelou um estudo divulgado nesta terça-feira nos Estados Unidos.

Para os estudantes que se formarão em 2014, a Tchecoslováquia nunca existiu, Clint Eastwood é um cineasta que nunca interpretou "Dirty Harry" e John McEnroe é garoto propaganda que nunca pisou numa quadra de tênis, segundo as respostas de uma pesquisa feita por acadêmicos da Universidade de Beloit.

A lista Mindset (modo de pensar) foi compilada pela primeira vez em 1998 a partir de perguntas feitas à geração que se formaria em 2002, pelo professor de Humanidades Tom McBride e o ex-diretor de relações públicas Ron Nief, da Universidade Beloit.

Criar a lista levou um ano, durante o qual Nief e McBride coletaram contribuições externas, estudaram minuciosamente jornais, trabalhos literários e a mídia do ano de nascimento das pessoas que entraram na universidade em agosto ou setembro, início do ano letivo nos Estados Unidos.

"Em seguida, apresentamos as ideias a todos os jovens de 18 anos de quem conseguimos chamar a atenção", explicou Nief à AFP.

O objetivo era lembrar às autoridades educacionais como as referências culturais se perdem rápido, mas acabou se tornando, rapidamente, uma popular lista anual que demonstra os conhecimentos de uma geração.

Os nascidos em 1980 acham que só houve um papa, João Paulo II, que assumiu em 1978 e morreu em 2008.

Para os que chegaram ao mundo em 1981, a Iugoslávia nunca existiu. Eles não entendem por que se escreve com letra maiúscula o nome do sindicato Solidariedad, único independente na União Soviética e que conseguiu terminar pacificamente com o comunismo na Polônia, em 1989.

Os que nasceram em 1984 não tinham ideia de que algo como o apartheid existiu na África do Sul. Enquanto para os que hoje têm 29 anos, Mike Tyson foi "sempre um delinquente", os que são cinco anos mais velhos consideraram o boxeador "sempre um competidor".

"Há dois anos, havia alguns estudantes que (disseram) que aprenderam datilografia em uma máquina de escrever", enquanto agora há alguns de 30 anos que não sabem que a IBM foi fabricante de máquinas de escrever, disse Nief.

Para os alunos secundaristas que se formam este ano, a Alemanha nunca foi dividida, os atletas profissionais sempre competiram nos Jogos Olímpicos, os "reality shows" sempre existiram na televisão e as companhias aéreas jamais permitiram fumar a bordo.

Agência France Press


E estes idiotas querem dar lições de moral ao mundo, qualificando pessoas e países como sendo "do bem" ou "do mal"...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A lenda do Bunda-Esponja

Pois esta história teria ocorrido na Zona Franca de Manaus, lá pelos anos 80. Nunca saberemos se foi fato ou se é pura lenda urbana.

O André era chefe - oficialmente Gerente da Divisão de Componentes Discretos do Departamento Industrial da Subunidade Norte da Unidade Brasil de uma destas multinacionais que abrem e fecham filiais aqui e acolá como a gente troca de cueca. O André era um típico chefe de fábrica: autoritário com os subordinados, servil com os superiores e absolutamente amarrado para tomar decisões. Insegurança era seu segundo nome, pusilanimidade o sobrenome. O típico chefe que tem a mania de reagir de forma irritada ao esclarecer alguma dúvida para um funcionário.

Quando alguém lhe pedia para se posicionar, ele respondia com um sonoro "Well", dava de ombros, e dizia que o funcionário tinha plenas condições de decidir, e portanto não poderia se omitir de sua responsabilidade. Inevitavelmente atribuía a seus funcionários tarefas muito abaixo da sua capacidade e centralizava as decisões, embora não gostasse de decidir. Seu mantra, que repetia sempre que se defrontava com a necessidade de uma tomada de decisão, era: "Não sei se vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. Só sei que indo não fico, ficando sei que não vou". E encarava o interlocutor com uma expressão enigmática, até que o vivente se tocasse e saísse fora.

Qualquer reivindicação dos funcionários era descartada, após longo período de desconversação.

Vivia angustiado, a equipe desmotivada, as decisões não eram tomadas. Seu consumo de anti-ácidos era indecente, roia as unhas e a ponta do lápis. Durante as reuniões fazia desenhos misteriosos, resmungava e resfolegava; evitava se posicionar, mas depois resolvia tudo pela sua cabeça, sempre de forma a agradar seus (muitos) superiores.

Um dia o tal chefe foi tirar férias, e a turma da fábrica resolveu fazer uma brincadeira. Construíram um boneco com sucata e o sentaram na mesa do dito cujo. Usaram um velho guarda-pó, os sapatos de segurança de praxe, fita isolante, um capacete, cabos, luvas, muita estopa e assim por diante. Improvisaram uma gravata. E, no lugar das nádegas, colocaram uma gigantesca esponja, cuidadosamente "esculpida" no formato de uma bunda. E deixaram lá o tal boneco, para ver a reação do chefe quando voltasse.

Claro que quando o André voltou, sentiu-se emocionado com a homenagem (sim, ele se considerava amado pelos seus subordinados). Ficou intrigado mesmo é com a tal da esponja... Perguntou ao pessoal que estava ao redor:

- Por acaso vocês estão me chamando de bunda-esponja?

E a massa, em coro:

- Bunda-esponja não, chefe. BUNDA-MOLE!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Tribunal Penal Internacional

O Tribunal Penal Internacional (TPI) ou Corte Penal Internacional (CPI) é o primeiro tribunal penal internacional permanente. Foi estabelecido em 2002 na Haia, cidade nos Países Baixos, onde inclusive fica a sede do Tribunal, conforme estabelece o artigo 3º do Estatuto de Roma, documento aprovado no Brasil pelo Decreto Nº 4.388 de 25 de setembro de 2002.

O objetivo da CPI é promover o Direito internacional, e seu mandato é de julgar os indivíduos e não os Estados (tarefa do Tribunal Internacional de Justiça). Ela é competente somente para os crimes mais graves cometidos por indivíduos (definidos por diversos acordos internacionais, principalmente o Estatuto de Roma):
  • genocídios,
  • crimes de guerra,
  • crimes contra a humanidade, e talvez
  • crimes de agressão (quando estes tiverem sido definidos).
O nascimento de uma jurisdição permanente universal é um grande passo em direção da universalidade dos Direitos humanos e do respeito do direito internacional. Well, até aqui é a definição da Wikipedia.

Além do Brasil, a maioria dos países democráticos do mundo aderiu à idéia. Países ditatoriais ou imperialistas como EUA, China, Israel, Iêmen, Iraque, Irã, Líbia e Qatar não assinaram. O governo estadunidense teme que seus soldados envolvidos em guerras como as do Afeganistão e Iraque venham a ser julgados pelo Tribunal - ou seja, admite implicitamente que os crimes de guerra cometidos pelos seus soldados têm amparo governamental, como nas torturas sistemáticas praticadas em Abu Greib e Guantanamo.

Nem George W. Bush assinou, nem Barack Obama. Benjamin Netanyahu também não assinou, nem Mahmoud Ahmadinejad. Hitler, sem dúvida, também não assinaria.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Celso Roth

Pois o odiado Celso Roth levou o Internacional a conquistar a Libertadores.

Quem diria! Eu nunca vi um treinador ser tão massacrado pela famigerada mídia desportiva. Por ser um homem objetivo e sincero, absolutamente incapaz de bajular os repórteres, ganhou fama de turrão e até de mau caráter. E, quando foi treinador do Grêmio (vice-campeão do Brasileirão em 2008), começou a ser chamado de burro.

Recentemente, grande parte da imprensa lamentou a sua contratação para o cargo de treinador do Internacional. Burro, mau caráter, grosso, mal educado, e assim por diante.

E agora? Como ficam todos os cronistas espotivos que chamavam o Celso Roth de burro? Não serão eles - os cronistas espotivos - os burros? Ou os burros somos nós, que acreditamos nos cronistas espotivos?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Poesia de Latrina

Não sei quem foi o desgraçado que pariu a idéia, mas o fato é que a praga se espalhou que nem cheiro de bosta recém pisada. É a tal poesia nos ônibus, tentativa demagógica de usar o dinheiro público para bajular poetas (felizmente) desconhecidos.

Pois, para combater mais esta desfaçatez politicamente correta, este Blog resolveu publicar os maiores expoentes conhecidos da Poesia de Latrina, iniciando pelo seu ícone máximo, reconhecimento do valor literário do gênero:

Triste sina, ser poeta de latrina!

Outras singelas poesias latrinais, de profundo cunho social:

Se merda fosse dinheiro, pobre nascia sem cu.

Pobre é que nem papel higiênico: se não tá num rolo, tá na merda!

E temos ainda a bela homenagem ao professor querido:

Se o mar invadisse a Terra,
com toda a sua força profunda,
Fulano não morreria
Porque merda não afunda!

Citemos também a conscientização ecológica nesta obra-prima:

Merda não é tinta,
Dedo não é pincel.
Quem cagar neste banheiro,
é favor usar papel.

Da mesma forma, o misticismo, com seus mantras positivos, se faz presente:

Cague cantando
Prá merda sair dançando.

Que tal estas singelas constatações filosóficas:

Neste lugar solitário,
onde toda vaidade se acaba,
todo covarde faz força
e todo valente se caga.

Aqui é um lugar de reflexão profunda,
a merda bate na água,
a água bate na bunda.

Cagaste fora do vaso
por que não cagaste dentro ?
A boca do vaso está torta
Ou teu cu está fora do centro?

O peido é o grito de liberdade da merda oprimida!

Por falar em vaidade, que tal esta:

Se cabelo tivesse valor,
não nascia no cu!

Poesia de Latrina também
é cultura:

A diferença entre cagar e dar o cu é meramente vetorial

Aqui termina toda obra de um cozinheiro.


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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Genialidade pouca é bobagem

Deixo aqui uma pequena coletânea de frases tiradas de algumas letras daquela que foi, na minha opinião, a dupla mais lúcida da música brasileira (recente, pelo menos): Raul Seixas e (não, Paulo Coelho não!) Marcelo Nova. Nada daquelas bobagens de misticismo e disco voador.

As letras são ora de um, ora do outro, ora dos dois.

Carpinteiro do Universo (Marcelo Nova / Raul Seixas)
Carpinteiro do universo inteiro eu sou.
Não sei por que nasci pra querer ajudar a querer consertar o que não pode ser...
O meu egoismo, é tão egoísta, que o auge do meu egoismo é querer ajudar.

Carpinteiro do universo inteiro eu sou (Ah eu sou assim!).
No final, Carpinteiro de mim!


Banquete de Lixo (Marcelo Nova / Raul Seixas)
O hoje é apenas um furo no futuro
Por onde o passado começa a jorrar
E eu aqui isolado onde nada é perdoado
Vi o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar.

Nem todo bem que conquistei, nem todo mal que eu causei
Me dão direito de poder lhe ensinar

E é assim torto de verdade com amor e com maldade
Um abraço e até outra vez

A Lei (Raul Siexas)
Todo homem tem direito de pensar o que quiser
Todo homem tem direito de amar a quem quiser
Todo homem tem direito de viver como quiser
Todo homem tem direito de morrer quando quiser

Todo homem tem direito de descansar como quiser
De morrer como quiser
O homem tem direito de amar como ele quiser
De beber o que ele quiser
De viver aonde quiser
De mover-se pela face do planeta livremente sem passaportes
Porque o planeta é dele, o planeta é nosso.

Best Seller (Marcelo Nova / Raul Seixas)
O Best Seller do momento
É um livro agourento
Que ninguém entende mas
Todo mundo quer ler
Ler pra ter cultura e como acabaram
com a censura
A mídia agora é o nosso Aiatolá

E o Best Seller vai pra milésima edição
Se já não existe inteligência
Então vamos bater continência pra esse indício
De resquício militar (um, dois, três, quatro)
E como é tudo a mesma merda,
Antes que chegue a vida eterna
Eu vou pedir asilo ao Paraguai
Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa com o mocinho
E o Best Seller vai pra milésima edição...

A Ferro e Fogo (Marcelo Nova/ Karl Hummel/ Gustavo Mullem)
Mas ficamos excitados, em poder viajar
Não importa o destino, serve pra qualquer lugar
Pra algum ponto perdido, em algum canto do mundo
Desafiar o oceano e a ira de Netuno

Lá no alto mar a tempestade desabou
Entre raios e trovões o nosso sonho afundou
E nada mais restou, além daquele desejo insano
De com apenas nossos braços cruzar o oceano

Cada um por si, fique preparado
Estamos tão famintos e boiamos esgotados
Mas quase afogando, o desejo não termina
Pois navegar a esmo, talvez seja a nossa sina

Tudo isso um dia acaba pra de novo começar
Somos moldados A Ferro E Fogo.

Mamãe eu não queria (Raul Seixas)
Larga dessa cantoria menino
Música não vai levar você lugar nenhum
Peraí mamãe, güenta aí

Mamãe, eu não queria
Servir o exército

Não quero bater continência (Trá-lá-lá-lá)
Nem pra sargento, cabo ou capitão (Trá-lá-lá-lá)
Nem quero ser sentinela, mamãe
Que nem cachorro vigiando o portão
Não!

Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho
Mamãe eu não queria

Crime Perfeito (Marcelo Nova)
Sexta-feira a noite
Ele gasta a quinzena
Com uísque com garotas
Que nunca valem a pena

Procura pela claridade
O órfão da escuridão
Invadindo sinais vermelhos
Apanhado na contramão

Correndo por nossas vidas
Sem saber até onde
Correndo por nossas vidas
Ainda não fomos muito longe

Vive tentando matar o tempo
Pra ser um homem feliz
Achar que esse é o crime perfeito
Pois não se vê nem cicatriz

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O tempo e as jabuticabas - Rubem Alves

O tempo e as jabuticabas

'Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados,
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'

O essencial faz a vida valer a pena.

Rubem Alves

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Anti-Marketing (1)

Nunca use uma roupa só porque é moda; no ano passado as mulheres andavam com aquelas calças de caçar marreco em banhado, chamadas de “fusô”; este ano andam de tamanco na praia; no próximo ano, quem sabe, voltarão a utilizar coques no cabelo, com agulhas de tricô atravessadas. O fato de todo mundo fazer a mesma coisa não muda o caráter ridículo de certas coisas.

Nunca faça o que a propaganda mandou – afinal, você é bem mandado ou tem suas próprias opiniões?

Frases

Coletei na Internet, não sei quem são os autores:

O melhor negócio é abrir um puteiro. Se você falir, ainda pode comer o estoque.

Quem dá importância às pequenas coisas é mulher de japonês.

Sexo não tem nada a ver com amor. Tanto é verdade que o governo me fode há anos, e eu não sou apaixonada por ele.

Nas horas difíceis da vida você deve levantar a cabeça, estufar o peito, e dizer de boca cheia: Agora fudeu...!!!

Se um dia, a vida lhe der as costas... passe a mão na bunda dela!

Os psiquiatras dizem que uma em cada quatro pessoas tem alguma deficiência mental... Fique de olho em três dos seus amigos. Se eles parecerem normais, o retardado é você!!

O duro não é carregar o peso do chifre.... é sustentar a vaca.

Para que levar a vida a sério, se nós nascemos de uma gozada?

Quem enxerga mais longe é o ginecologista... porque enxerga lá na casa do caralho!

Se você é capaz de sorrir quando tudo deu errado, é porque você já descobriu em quem por a culpa.

Deixei a bebida. O ruim é que não lembro onde.

Para alcançar um objetivo, é necessário sonhar... Não perca tempo, largue tudo e vá dormir!

Eu bebo pra ficar ruim mesmo, porque se fosse pra ficar bom eu tomava remédio.

Mulheres são como moedas... ou são caras, ou são coroas.

Esposa é aquela pessoa amiga e companheira, que está sempre ali, ao seu lado, para ajudá-lo a resolver os grandes problemas que você não teria se fosse solteiro.

Sexo é como truco, se você não tem um bom parceiro, é melhor que tenha uma boa mão!

A mulher mais feliz do mundo é a namorada do saci, pois ela sabe que, se levar um pé na bunda, quem se fode é ele!

Amnésia é o cara não lembrar o que é o clitóris, depois de ter estado várias vezes com a resposta na ponta da língua.

O grande amigo não é o que vem separar a briga, mas sim aquele que chega dando a voadora.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Capoeira

Os capoeiristas todos perfilados na roda de capoeira, batendo palmas no ritmo do berimbau e cantando a música. Os capoeiristas se revezavam, jogavam, e os demais assistiam e cantavam ao som do berimbau. Rabo-de-arraia prá lá, rasteira prá cá, martelo, giros de mão, esquivas, queixadas, cabeçadas, e por aí vai, tudo na elegância.

Entra dupla, sai dupla, tudo no maior comportamento, até que dois manés resolveram deixar a filosofia de lado e partiram prô soco, cascudo e cusparada. A turma do deixa-disso não conseguiu nada, e aí o círculo se abriu, e os dois animais se meteram embaixo de um Opala estacionado, aos socos e pontapés, e um deles, naquele espaço exíguo debaixo do tanque de gasolina do carro, ainda conseguiu espatifar o tal berimbau na cabeça do outro. Não sossegaram nem quando dois brigadianos desceram o cacete com vontade nos seus lombos. Quem levou a pior foi o pobre do Opala, cheio de cuspe e todo amassado.

E a massa ali reunida, xingando os dois ridículos, que ainda continuaram se soqueando no banco de trás da viatura policial...

Porrada

Esta aconteceu na frente do CEUE, esquina da Sarmento Leite com João Pessoa, nos tempos do Gen. Figueiredo, aquele que pediu para ser esquecido – e foi. Tinha um kombi estacionando, certinho, sem fazer cagada. Vinha vindo um caminhãozinho Mercedes, que meteu por cima da tal kombi sem piedade. Intencionalmente, de propósito, por maldade mesmo. A desproporção entre os veículos envolvidos era grande, havia sido um espetáculo de prepotência e mais nada.

Aí desce o motorista da kombi, um careca reforçado, lutador de judô, karatê, kung-fu, kajukenbo, kickboxing, kokondo, limalama, danzan-ryu, shingitai-jujitsu, shootfighting, shoot wrestling, tora-dojo, wen-do, bando, banshay, lethwei, naban, shotokan, shukokai, sojutsu e mais umas 35 modalidades. Só não tinha, definitivamente, aparência de lutador de sumô.

Pois o grandalhão irado saiu da pequena kombi, abriu a porta do caminhão e puxou o canalha prá fora. Só que o tal motorista do caminhão era um baixinho fracote, inversamente proporcional ao tamanho do caminhão que tinha jogado por cima da kombi do lutador marcial.


A cena a seguir foi dantesca: a desproporção entre os motoristas era maior do que a desproporção entre os veículos. Bem maior. Aí o lutador, motorista da kombi, começou a moer o outro de pancada, sob os aplausos entusiasmados da platéia que se juntava rapidamente. Só parou quando conseguiu enfiar a cabeça do desgraçado dentro do bueiro. Aí foi conferir os danos da kombi e se mandou dando risada.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Henry Louis Mencken

Henry Louis Mencken (12/09/1880 – 29/01/1956) foi um jornalista, ensaísta, editor de revista norte-americano. Era um crítico dos parentes do macaco, em especial da cultura dos seus conterrâneos. Reproduzo alguns dos seus pensamentos:

"Um bom político é tão inconcebível quanto um ladrão honesto."

"Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive."

"Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente será um engano."

"Uma igreja é um lugar onde senhores que nunca estiveram no Céu dizem maravilhas a respeito dele para pessoas que nunca irão para lá."

"A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável."

"O amor é a ilusão de que uma mulher é diferente das outras."

"Imoralidade é a moralidade daqueles que estão se divertindo mais do que nós."

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Visão de neo-liberal sobre crime organizado

Visão de neo-liberal sobre crime organizado

Reproduzo abaixo excelente texto do Carlos Drummond (Terra Magazine):

O crime organizado não é exatamente uma corporação do tipo Câmara de Comércio para o mercado do crime. Um ladrão é ladrão pela mesma razão que um economista é economista. A decisão de cometer um crime, como qualquer outra decisão econômica, pode ser analisada como uma escolha entre combinações alternativas de custos e benefícios. O que a sociedade precisa, do ponto de vista da eficiência econômica, é de um nível ótimo de roubo. Estas são algumas das máximas do economista neo-liberal David D. Friedman, que ilustram até onde pode levar o sistema de idéias que nos conduziu à atual situação.

A importância decisiva do Estado na defesa da sociedade, agora relembrada por efeito das ações do PCC, é algo que deveria ser óbvio sempre. Entretanto, essa noção esfumou-se ao longo do reinado neo-liberal, que maximizou a importância do mercado em proveito de poucos e tornou o poder público invertebrado ao retirar-lhe os meios materiais para desempenhar as suas funções insubstituíveis.

Levados a sério os cânones neo-liberais, por exemplo na questão do crime, chega-se a raciocínios como os expostos por David D. Friedman, da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago.

Os economistas abordam a análise do crime, afirma Friedman, com um pressuposto simples - o de que os criminosos são pessoas racionais. "Um ladrão é um ladrão pela mesma razão que eu sou um economista - porque é a alternativa mais atraente para ele. A decisão de cometer um crime, como qualquer outra decisão econômica, pode ser analisada como uma escolha entre combinações alternativas de custos e benefícios." É com esse balizamento que o economista inicia o verbete sobre Crime escrito para a enciclopédia Fortune de economia, publicada pela Warner Books.

Friedman segue nessa toada:

- Para impedir uma pessoa de cometer algo prejudicial a você, seja assaltar a sua casa ou poluir o ar que você respira, não é necessário tornar isso impossível, mas, simplesmente, não lucrativo.

- O que os economistas chamam de "deseconomia de escala" é um problema particularmente sério nas organizações criminosas e implica em que o tamanho médio das mesmas tende a ser menor, não maior, do que as empresas de outros mercados.

- O crime organizado não é exatamente uma corporação do tipo Câmara de Comércio para o mercado do crime - uma rede de indivíduos e de empresas pequenas que rotineiramente fazem negócios umas com as outras e ocasionalmente cooperam por interesse mútuo.

- Estimativas publicadas sugerem que o custo de produzir drogas no exterior e transportá-las para os Estados Unidos representa apenas um por cento do preço cobrado por elas nas ruas. Assim, mesmo que o custo da coca dobrasse, o resultado seria um aumento de apenas um por cento no preço da cocaína, e uma diminuição igualmente pequena no total consumido. Esta análise econômica sugere que pressionar outros países para não produzirem drogas provavelmente não é uma maneira muito eficaz de reduzir o seu uso.

- Se eu roubo dez dólares de você, eu me torno dez dólares mais rico e você, dez dólares mais pobre. Portanto, a riqueza total da sociedade permanece inalterada. Aparentemente, se julgarmos as leis apenas na base da eficiência econômica, não há razão para que o roubo deva ser ilegal. Isso parece óbvio, mas está errado.

Se roubar é mais lucrativo do que lavar pratos ou trabalhar como garçom, os trabalhadores serão estimulados a abandonar essas atividades e partir para o roubo. Na medida em que o número de ladrões aumenta, o retorno do roubo cai, porque o que é fácil de ser roubado já o foi e porque as vítimas passam a se defender contra o aumento dos roubos instalando cadeados, grades, alarmes e adquirindo cães de guarda.

Em equilíbrio, o ladrão paga, com seu tempo e seu esforço, o preço daquilo que rouba. Assim a perda da vítima é uma perda social líquida - o ladrão não tem um ganho igual para compensá-la. De modo que a existência dos ladrões torna a sociedade como um todo mais pobre, não porque o dinheiro foi transferido de uma pessoa para outra, mas porque recursos produtivos foram desviados do negócio da produção para o negócio do roubo.

- Reduzir o roubo a zero muito provavelmente custaria mais do que o benefício trazido pela medida. O que nós precisamos, do ponto de vista da eficiência econômica, é de um nível ótimo de roubo.

- Nós precisamos aumentar os nossos gastos para o cumprimento das leis somente até o ponto em que um dólar a mais desembolsado para capturar e punir ladrões reduza o custo líquido do roubo em mais de um dólar. Além desse ponto, reduções adicionais dos roubos custarão mais do que elas valem.

- À primeira vista pode parecer sempre eficiente impor a maior punição possível. Quanto maior a punição, menos criminosos haverá para capturar com o objetivo de manter determinado nível de dissuasão - e apanhar criminosos é caro. Um motivo pelo qual isso é errado é que punir criminosos também é caro.

Carlos Drummond, 56 anos, é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp e é doutor em Economia pela Unicamp.

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1014649-EI6609,00-Visao+de+neoliberal+sobre+crime+organizado.html

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Dos filhos deste solo...

Pois o Getúlio era lá do Alegrete, índio velho, cabelo preto, pêlo duro; tinha um tio açoriano e o avô materno era castelhano das bandas da República Oriental. A mãe tinha cruza com guarani. O pai, homem de poucas palavra, era lá de São Borja, não muito longe no mapa, mas a alguns dia de cavalo. Tinha ainda um tio que dizia ser bisneto de um jesuíta das Missões. O Getúlio achava que não podia ser bisneto, havia de ser no mínimo o tataraneto, mas não importava. Era pêlo duro dos quatro costado. Nasceu no mesmo dia em que Getúlio Vargas, traído pelos seus assessor e acusado pelos capacho do imperialismo, meteu a bala no coração, saiu da vida e entrou para a história. Daí o seu nome de batismo.

Como todos os do seu tempo no Alegrete, o Getúlio morava na estância, e começou a trabalhar cedo. Não era um sujeito de muitas letra, mas de burro não tinha nada. Sabia das coisa. Não usava o "s" no fim das palavra, pois índio velho não desperdiça cuspe em bobagem. A professora, que ensinava nas fazenda, logo percebeu a teimosia do piá, e deixou por isso mesmo.

Com 10 anos viu o golpe, Brizola e Jango no exílio, o resto tudo preso ou morto, mas não entendeu muita coisa. Foi a única vez que viu seu pai chorar. A mãe não, esta chorava com freqüência, como era normal com as mulher. Também, prá que tanto filho! Mais tarde entendeu como é que os filho nascia, e viu que era mais difícil evitá-los do que pensava quando era piá.

Sempre na estância, acabou casando e tendo 3 filho, que até hoje estão por aí, pela vida afora. Nem ficaram sabendo do seu passamento.

Foi só nos ano 80, quando a fome chegou no campo, que o Getúlio foi embora. Crise braba aquela, mais feia que paraguaio baleado. O homi pegou seus traste e se mandou. Peleou, peleou, e acabou dando com os costado em Porto Alegre bem no dia do comício pelas Diretas, ali na frente da Prefeitura. Era abril de 1984; os doutor engravatado no palanque, aquele povaréu cheio das esperança, e ele ali, sem entender chongas nenhuma. Só reconheceu o Brizola, os outros ele não sabia quem eram. Ficou ouvindo aqueles 200 mil vivente cantando o hino nacional: "Dos filhos desta terra és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!"

Dormiu na praça, era uma noite agradável. Acabou se juntando com uma turma que vivia pelas rua mesmo, às vez achavam algum abrigo ou albergue. Na época, eram poucos os morador de rua, e não era tão ruim.

Pois agora tava lá o Getúlio, guardador de carro na volta do Gasômetro, um dos pouco sem passagem na polícia. As companhia andavam complicada, tinha muito cheirador de cola, e agora o crack. Os piá ficavam alucinado por qualquer merda. E agressivos. E tinha piá chapado aos monte, cada dia tinha mais guri novo nas rua. Esses guri nem prá catar bosta servia...

Seu único vício era a cachaça. Não tomava na guampa, aqui não tinha esses luxo. Era no bico da garrafa mesmo. Não dá prá morar na rua sem molhar o bico. Dói tudo, aqui não tinha as erva que ele tomava quando era guri. Mesmo que tivesse, ele não sabia, não entendia dessas coisa, isto era assunto de mulher, e mulher não tinha nas rua. Ou tinha, mas as china queriam a grana dos otário, ninguém tava aí prás dor de rim dele, ou prás cólica de fígado. Então, só a pura, que também aliviava a fome e esquentava nas noite gelada.

Uma da madrugada. Por mais que ele tentasse levantar prá mijar, as coisa giravam, será que foi cachaça demais? Não tinha bebido mais que nos outros dia, mas sabia que não tava bem. Acabou se mijando nas calça mesmo, não por porquice, apenas não conseguia se mexer. A dor agora era insuportável, a pinga já não resolvia. As coisa agora não giravam mais, mas tava tudo saindo de foco, ficando mais longe, cada vez mais longe e mais apagado. Deitado ali na mesma calçada de sempre, quase não ouvia o ônibus que passava a metro e meio da sua cabeça. O Getúlio véio babava feito boi com aftosa.

Lá jazia o homem, pária da sociedade, um dos modernamente chamado de "excluídos". Não era bandido, apenas não tinha nada. Não era vagabundo, só não tinha emprego. Todas aquelas lei, todos aqueles direito, as salvaguarda constitucional, tudo aquilo não servia para nada. Tentou impetrar um mandado de segurança contra a fome. Nada. Tudo aquilo não alcança o mundo real.

E o silêncio foi tomando conta, o silêncio derradeiro do filho deste solo; a última coisa que ele conseguiu lembrar foi aquela estrofe do hino nacional que ouvira na sua chegada a Porto Alegre, vinte e tantos ano antes: "Dos filhos deste solo és mãe gentil..."

quinta-feira, 26 de junho de 2008

"O dia mais feliz da minha vida será aquele em que o último rei for enforcado nas tripas do último padre."
Voltaire, teórico Iluminista

Ou, atualizando para os dias de hoje:
"O dia mais feliz da minha vida será aquele em que o último político for enforcado nas tripas do último empresário."

terça-feira, 13 de maio de 2008

Tiro certeiro

Sempre odiei a tal música ao vivo. Considero uma merda pagar um infeliz desafinado para cantar coisas que a gente não gosta, aquele som abafado, a voz esganiçada, anasalada, um ruído permanente que não chega a ser música, mas que impede qualquer conversação.

Chegamos no barzinho, um lugar bastante agradável, bem decorado, garçons atenciosos, comida boa e cerveja gelada – tinha tudo para ser uma noite agradável. Nos acomodamos, começamos a conversar, mil assuntos, idéias, opiniões. De repente, do nada, surge um energúmeno arrastando um violão, acompanhado por um auxiliar com seu pandeiro e outras coisinhas de bater em cima. Sentaram-se os dois nuns cepinhos, ajustaram a parafernália eletrônica e teve início a nossa via-crúcis.

Começaram o massacre com uma versão macarrônica do que parecia ser uma velha música americana, que ninguém conseguia se lembrar qual era. O sujeito dos pandeiros tapeava sem piedade os seus instrumentos, o cretino do violão fazia de conta que seu instrumento era um banjo, e lá seguia a desgraceira. Os caras foram se entusiasmando, os instrumentos gemendo pelo mau uso. E nós ali, cada vez mais indignados com a porcaria que assistíamos contra a nossa vontade.

O segundo número foi o inevitável “Leãozinho” do Caetano Veloso. Não sei que fixação estes tais artistas da noite tem por esta música. Depois um sertanojo qualquer, eu seria incapaz de reconhecer a música, mais caipiragem americana, mais sertanojo, aí deformaram uma que outra música do Roberto Carlos. Então resolveram tocar a inevitável desculpa para sua performance constrangedora: "A dissonância será bela..."

Com o rabo do olho, vi um garçon se dirigindo até uma mesa e correndo até o equipamento de som para baixar a porcaria. Estabeleceu-se ali um conflito, porque o auxiliar do infeliz cantor aumentou novamente, e o garçon dizia que os clientes estavam se sentindo incomodados, baixava, e o animal aumentava novamente.

Começamos a nos mexer para ir embora, quando o aprendiz de chato atacou com aquela infalível do Djavan “Ai! Quanto querer...” Ele não teve nem tempo de falar “córação”, porque uma garrafa de uísque estatelou-se na testa do marmanjo. Não vi quem foi, não sei se foi um cliente ou o garçon, mas o fato é que o ato heróico calou por completo o tal autista, que jazia estatelado no chão, em meio a uma poça de sangue e uísque barato, ou uísque e sangue barato.

Não resisti e comecei a aplaudir; os demais me acompanharam, primeiro envergonhados, e à medida que se libertavam da sua correção política, cada vez com mais entusiasmo. Chutamos o bosta e seu auxiliar prá fora do barzinho, e bebemos toda a grana que íamos gastar com o famigerado “couvert artístico” que havíamos acabado de dispensar.