Que o caro leitor me perdoe a petulância de usar o mesmo título que Jean-Paul Sartre (novelista francês, teatrólogo e maior intelectual do Existencialismo) utilizou em 1938 para escrever um romance em que o protagonista Antoine Roquentin demonstra uma inabalável repugnância em relação ao mundo material. Claro, o livro não é apenas isto.
Mas, pedindo a devida licença a Sartre, não é outra a situação em que me vejo. Acompanhe-me, caro leitor, e reflita sem preconceitos político-partidários.
Sempre fui - e sou até hoje - um destes sujeitos patéticos que trabalha, paga impostos, evita comprar artigos piratas, vota em todas as eleições, não joga papel no chão, nem mesmo coça o saco em público. Não tenho dívidas, não tenho ficha policial, não estou sendo processado, nunca agredi ninguém, mas sofro uma pena perpétua. E, se o caro leitor refletir sobre a sua realidade, verá que sofre a mesma pena. A pena a que me refiro, claro, é o confisco que sofro em bem mais da metade dos meus rendimentos. Ora, os governos (federal, estadual, municipal e do bairro, se fosse possível) me levam algo em torno de 40% do que recebo – o chamado salário “bruto”. Faz jus ao nome a brutalidade com que me expoliam o que me pertence. Já nem falo da exploração do meu patrão, que lucra às custas do meu trabalho, pois este assunto, após a queda do Muro de Berlin, parece que virou tabu. Faz de conta que isto não existe mais...
O que me dão em troca dos meus de 40%? Garantia de emprego? Saúde? Educação? Segurança pública? Aposentadoria integral? É muito dinheiro, só aí morre quase a metade de tudo o que ganho. Claro, hoje se fala em “paternalismo” quando o governo faz algo pelos seus cidadãos. Como, paternalismo??? Pois se estamos pagando, não é paternalismo, é OBRIGAÇÃO.
Mas, não. Além dos 40%, pago plano de saúde, dentista, colégio particular para o meu filho, um guarda para a minha rua; todo e qualquer remédio sai do meu bolso. Pior, o seguro do carro aumentou porque estão roubando muitos carros. Nem a segurança pública...Tem mais uns bons 20% (acho que estou sendo irresponsavelmente otimista) que morrem no lucro de toda e qualquer bugiganga que eu compro. É na gasolina, no telefone, na carne, no arroz, no papel higiênico, na farinha, nos legumes, nos pneus do carro, nos estacionamentos, nos remédios, no colégio, no plano de saúde, nas taxas dos bancos, nos livros, nos discos e em tudo o mais. E o que me dão em troca do lucro que me arrancam quando me vendem seus trastes? A riqueza DELES.
Tudo é regiamente pago, e cada vez mais pago, e pago diversas vezes. Cada vez pagamos mais por menos.
Mais de 60% do que ganho vão parar em “mãos erradas”. Sustento um monte de gente que nada me dá em troca dos meus preciosos 60%. Você já pensou no que seria capaz de fazer com 100% do seu salário “bruto”? Todo mês? Sem impostos e sem lucro para os porcos capitalistas?
Mas é preciso sustentar esta gente. Nós, que cultivamos o estranho e quase obsoleto hábito de trabalhar, precisamos colaborar com aqueles que nada fazem (e não estou me referindo exatamente aos desempregados...) Isto não passa, na realidade, de “responsabilidade social”. Afinal, para que os políticos, banqueiros, ruralistas, donos de jornais, investidores, especuladores, playboys, socialites e assemelhados confraternizem nos elegantes jantares da modernidade globalizada, é preciso que alguém pague a conta – VOCÊ!
Você realmente não se importa de pagar a festa desta gente, enquanto pede à sua mulher e aos seus filhos para não deixarem a luz acesa sem necessidade, para poupar uns poucos trocados? Leva mortadela para não pagar o preço do presunto? Cozido de músculo por que o filé mignon está fora do seu alcance? Come tapioca ao invés de trufas? É, alguém tá papando caviar e champanhe com o seu dinheiro...
Segundo “A Náusea” de Sartre, "Tudo é gratuito, o jardim, esta cidade, e eu mesmo; quando acontece da gente se dar conta disso, isso atinge a cabeça e tudo começa a flutuar; eis a náusea".
Enquanto tudo é gratuito (sem sentido), vamos pagando a conta dos gratuitos. Isto, sim, “atinge a cabeça e tudo começa a flutuar; eis a náusea".