Blog do Godofredo

Confesso que jamais tive, em toda a vida, um único pensamento politicamente correto. A tal correção política, que eu prefiro chamar de corretagem da politicalha, nada mais é do que a hipocrisia declarada e sem rodeios, o racismo disfarçado de tolerância, a cretinice assumida e a mentira conveniente.

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terça-feira, 13 de maio de 2008

Tiro certeiro

Sempre odiei a tal música ao vivo. Considero uma merda pagar um infeliz desafinado para cantar coisas que a gente não gosta, aquele som abafado, a voz esganiçada, anasalada, um ruído permanente que não chega a ser música, mas que impede qualquer conversação.

Chegamos no barzinho, um lugar bastante agradável, bem decorado, garçons atenciosos, comida boa e cerveja gelada – tinha tudo para ser uma noite agradável. Nos acomodamos, começamos a conversar, mil assuntos, idéias, opiniões. De repente, do nada, surge um energúmeno arrastando um violão, acompanhado por um auxiliar com seu pandeiro e outras coisinhas de bater em cima. Sentaram-se os dois nuns cepinhos, ajustaram a parafernália eletrônica e teve início a nossa via-crúcis.

Começaram o massacre com uma versão macarrônica do que parecia ser uma velha música americana, que ninguém conseguia se lembrar qual era. O sujeito dos pandeiros tapeava sem piedade os seus instrumentos, o cretino do violão fazia de conta que seu instrumento era um banjo, e lá seguia a desgraceira. Os caras foram se entusiasmando, os instrumentos gemendo pelo mau uso. E nós ali, cada vez mais indignados com a porcaria que assistíamos contra a nossa vontade.

O segundo número foi o inevitável “Leãozinho” do Caetano Veloso. Não sei que fixação estes tais artistas da noite tem por esta música. Depois um sertanojo qualquer, eu seria incapaz de reconhecer a música, mais caipiragem americana, mais sertanojo, aí deformaram uma que outra música do Roberto Carlos. Então resolveram tocar a inevitável desculpa para sua performance constrangedora: "A dissonância será bela..."

Com o rabo do olho, vi um garçon se dirigindo até uma mesa e correndo até o equipamento de som para baixar a porcaria. Estabeleceu-se ali um conflito, porque o auxiliar do infeliz cantor aumentou novamente, e o garçon dizia que os clientes estavam se sentindo incomodados, baixava, e o animal aumentava novamente.

Começamos a nos mexer para ir embora, quando o aprendiz de chato atacou com aquela infalível do Djavan “Ai! Quanto querer...” Ele não teve nem tempo de falar “córação”, porque uma garrafa de uísque estatelou-se na testa do marmanjo. Não vi quem foi, não sei se foi um cliente ou o garçon, mas o fato é que o ato heróico calou por completo o tal autista, que jazia estatelado no chão, em meio a uma poça de sangue e uísque barato, ou uísque e sangue barato.

Não resisti e comecei a aplaudir; os demais me acompanharam, primeiro envergonhados, e à medida que se libertavam da sua correção política, cada vez com mais entusiasmo. Chutamos o bosta e seu auxiliar prá fora do barzinho, e bebemos toda a grana que íamos gastar com o famigerado “couvert artístico” que havíamos acabado de dispensar.

Um comentário:

Ricardo Mainieri disse...

Olá:

Conheço vc. do blog da Rosane de Oliveira.
Criticando a versão RBS dos fatos, é claro.
Este relato tragicômico está muito engraçado.
Alguns enganadores merecem isso mesmo.
Podem me chamar de elitista, mas prefiro o jazz.

Abraço.

Ricardo Mainieri