Blog do Godofredo

Confesso que jamais tive, em toda a vida, um único pensamento politicamente correto. A tal correção política, que eu prefiro chamar de corretagem da politicalha, nada mais é do que a hipocrisia declarada e sem rodeios, o racismo disfarçado de tolerância, a cretinice assumida e a mentira conveniente.

Querido leitor, se você tiver alguma contribuição, por favor, este Blog conta com a sua ajuda. Só não vale chinelagem, como chamar alguém de viado ou vagabunda, nem manifestações racistas, nem pagode.

Ajude-me a desmascarar esta gentalha!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Henry Louis Mencken

Henry Louis Mencken (12/09/1880 – 29/01/1956) foi um jornalista, ensaísta, editor de revista norte-americano. Era um crítico dos parentes do macaco, em especial da cultura dos seus conterrâneos. Reproduzo alguns dos seus pensamentos:

"Um bom político é tão inconcebível quanto um ladrão honesto."

"Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive."

"Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente será um engano."

"Uma igreja é um lugar onde senhores que nunca estiveram no Céu dizem maravilhas a respeito dele para pessoas que nunca irão para lá."

"A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável."

"O amor é a ilusão de que uma mulher é diferente das outras."

"Imoralidade é a moralidade daqueles que estão se divertindo mais do que nós."

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Visão de neo-liberal sobre crime organizado

Visão de neo-liberal sobre crime organizado

Reproduzo abaixo excelente texto do Carlos Drummond (Terra Magazine):

O crime organizado não é exatamente uma corporação do tipo Câmara de Comércio para o mercado do crime. Um ladrão é ladrão pela mesma razão que um economista é economista. A decisão de cometer um crime, como qualquer outra decisão econômica, pode ser analisada como uma escolha entre combinações alternativas de custos e benefícios. O que a sociedade precisa, do ponto de vista da eficiência econômica, é de um nível ótimo de roubo. Estas são algumas das máximas do economista neo-liberal David D. Friedman, que ilustram até onde pode levar o sistema de idéias que nos conduziu à atual situação.

A importância decisiva do Estado na defesa da sociedade, agora relembrada por efeito das ações do PCC, é algo que deveria ser óbvio sempre. Entretanto, essa noção esfumou-se ao longo do reinado neo-liberal, que maximizou a importância do mercado em proveito de poucos e tornou o poder público invertebrado ao retirar-lhe os meios materiais para desempenhar as suas funções insubstituíveis.

Levados a sério os cânones neo-liberais, por exemplo na questão do crime, chega-se a raciocínios como os expostos por David D. Friedman, da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago.

Os economistas abordam a análise do crime, afirma Friedman, com um pressuposto simples - o de que os criminosos são pessoas racionais. "Um ladrão é um ladrão pela mesma razão que eu sou um economista - porque é a alternativa mais atraente para ele. A decisão de cometer um crime, como qualquer outra decisão econômica, pode ser analisada como uma escolha entre combinações alternativas de custos e benefícios." É com esse balizamento que o economista inicia o verbete sobre Crime escrito para a enciclopédia Fortune de economia, publicada pela Warner Books.

Friedman segue nessa toada:

- Para impedir uma pessoa de cometer algo prejudicial a você, seja assaltar a sua casa ou poluir o ar que você respira, não é necessário tornar isso impossível, mas, simplesmente, não lucrativo.

- O que os economistas chamam de "deseconomia de escala" é um problema particularmente sério nas organizações criminosas e implica em que o tamanho médio das mesmas tende a ser menor, não maior, do que as empresas de outros mercados.

- O crime organizado não é exatamente uma corporação do tipo Câmara de Comércio para o mercado do crime - uma rede de indivíduos e de empresas pequenas que rotineiramente fazem negócios umas com as outras e ocasionalmente cooperam por interesse mútuo.

- Estimativas publicadas sugerem que o custo de produzir drogas no exterior e transportá-las para os Estados Unidos representa apenas um por cento do preço cobrado por elas nas ruas. Assim, mesmo que o custo da coca dobrasse, o resultado seria um aumento de apenas um por cento no preço da cocaína, e uma diminuição igualmente pequena no total consumido. Esta análise econômica sugere que pressionar outros países para não produzirem drogas provavelmente não é uma maneira muito eficaz de reduzir o seu uso.

- Se eu roubo dez dólares de você, eu me torno dez dólares mais rico e você, dez dólares mais pobre. Portanto, a riqueza total da sociedade permanece inalterada. Aparentemente, se julgarmos as leis apenas na base da eficiência econômica, não há razão para que o roubo deva ser ilegal. Isso parece óbvio, mas está errado.

Se roubar é mais lucrativo do que lavar pratos ou trabalhar como garçom, os trabalhadores serão estimulados a abandonar essas atividades e partir para o roubo. Na medida em que o número de ladrões aumenta, o retorno do roubo cai, porque o que é fácil de ser roubado já o foi e porque as vítimas passam a se defender contra o aumento dos roubos instalando cadeados, grades, alarmes e adquirindo cães de guarda.

Em equilíbrio, o ladrão paga, com seu tempo e seu esforço, o preço daquilo que rouba. Assim a perda da vítima é uma perda social líquida - o ladrão não tem um ganho igual para compensá-la. De modo que a existência dos ladrões torna a sociedade como um todo mais pobre, não porque o dinheiro foi transferido de uma pessoa para outra, mas porque recursos produtivos foram desviados do negócio da produção para o negócio do roubo.

- Reduzir o roubo a zero muito provavelmente custaria mais do que o benefício trazido pela medida. O que nós precisamos, do ponto de vista da eficiência econômica, é de um nível ótimo de roubo.

- Nós precisamos aumentar os nossos gastos para o cumprimento das leis somente até o ponto em que um dólar a mais desembolsado para capturar e punir ladrões reduza o custo líquido do roubo em mais de um dólar. Além desse ponto, reduções adicionais dos roubos custarão mais do que elas valem.

- À primeira vista pode parecer sempre eficiente impor a maior punição possível. Quanto maior a punição, menos criminosos haverá para capturar com o objetivo de manter determinado nível de dissuasão - e apanhar criminosos é caro. Um motivo pelo qual isso é errado é que punir criminosos também é caro.

Carlos Drummond, 56 anos, é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp e é doutor em Economia pela Unicamp.

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1014649-EI6609,00-Visao+de+neoliberal+sobre+crime+organizado.html

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Dos filhos deste solo...

Pois o Getúlio era lá do Alegrete, índio velho, cabelo preto, pêlo duro; tinha um tio açoriano e o avô materno era castelhano das bandas da República Oriental. A mãe tinha cruza com guarani. O pai, homem de poucas palavra, era lá de São Borja, não muito longe no mapa, mas a alguns dia de cavalo. Tinha ainda um tio que dizia ser bisneto de um jesuíta das Missões. O Getúlio achava que não podia ser bisneto, havia de ser no mínimo o tataraneto, mas não importava. Era pêlo duro dos quatro costado. Nasceu no mesmo dia em que Getúlio Vargas, traído pelos seus assessor e acusado pelos capacho do imperialismo, meteu a bala no coração, saiu da vida e entrou para a história. Daí o seu nome de batismo.

Como todos os do seu tempo no Alegrete, o Getúlio morava na estância, e começou a trabalhar cedo. Não era um sujeito de muitas letra, mas de burro não tinha nada. Sabia das coisa. Não usava o "s" no fim das palavra, pois índio velho não desperdiça cuspe em bobagem. A professora, que ensinava nas fazenda, logo percebeu a teimosia do piá, e deixou por isso mesmo.

Com 10 anos viu o golpe, Brizola e Jango no exílio, o resto tudo preso ou morto, mas não entendeu muita coisa. Foi a única vez que viu seu pai chorar. A mãe não, esta chorava com freqüência, como era normal com as mulher. Também, prá que tanto filho! Mais tarde entendeu como é que os filho nascia, e viu que era mais difícil evitá-los do que pensava quando era piá.

Sempre na estância, acabou casando e tendo 3 filho, que até hoje estão por aí, pela vida afora. Nem ficaram sabendo do seu passamento.

Foi só nos ano 80, quando a fome chegou no campo, que o Getúlio foi embora. Crise braba aquela, mais feia que paraguaio baleado. O homi pegou seus traste e se mandou. Peleou, peleou, e acabou dando com os costado em Porto Alegre bem no dia do comício pelas Diretas, ali na frente da Prefeitura. Era abril de 1984; os doutor engravatado no palanque, aquele povaréu cheio das esperança, e ele ali, sem entender chongas nenhuma. Só reconheceu o Brizola, os outros ele não sabia quem eram. Ficou ouvindo aqueles 200 mil vivente cantando o hino nacional: "Dos filhos desta terra és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!"

Dormiu na praça, era uma noite agradável. Acabou se juntando com uma turma que vivia pelas rua mesmo, às vez achavam algum abrigo ou albergue. Na época, eram poucos os morador de rua, e não era tão ruim.

Pois agora tava lá o Getúlio, guardador de carro na volta do Gasômetro, um dos pouco sem passagem na polícia. As companhia andavam complicada, tinha muito cheirador de cola, e agora o crack. Os piá ficavam alucinado por qualquer merda. E agressivos. E tinha piá chapado aos monte, cada dia tinha mais guri novo nas rua. Esses guri nem prá catar bosta servia...

Seu único vício era a cachaça. Não tomava na guampa, aqui não tinha esses luxo. Era no bico da garrafa mesmo. Não dá prá morar na rua sem molhar o bico. Dói tudo, aqui não tinha as erva que ele tomava quando era guri. Mesmo que tivesse, ele não sabia, não entendia dessas coisa, isto era assunto de mulher, e mulher não tinha nas rua. Ou tinha, mas as china queriam a grana dos otário, ninguém tava aí prás dor de rim dele, ou prás cólica de fígado. Então, só a pura, que também aliviava a fome e esquentava nas noite gelada.

Uma da madrugada. Por mais que ele tentasse levantar prá mijar, as coisa giravam, será que foi cachaça demais? Não tinha bebido mais que nos outros dia, mas sabia que não tava bem. Acabou se mijando nas calça mesmo, não por porquice, apenas não conseguia se mexer. A dor agora era insuportável, a pinga já não resolvia. As coisa agora não giravam mais, mas tava tudo saindo de foco, ficando mais longe, cada vez mais longe e mais apagado. Deitado ali na mesma calçada de sempre, quase não ouvia o ônibus que passava a metro e meio da sua cabeça. O Getúlio véio babava feito boi com aftosa.

Lá jazia o homem, pária da sociedade, um dos modernamente chamado de "excluídos". Não era bandido, apenas não tinha nada. Não era vagabundo, só não tinha emprego. Todas aquelas lei, todos aqueles direito, as salvaguarda constitucional, tudo aquilo não servia para nada. Tentou impetrar um mandado de segurança contra a fome. Nada. Tudo aquilo não alcança o mundo real.

E o silêncio foi tomando conta, o silêncio derradeiro do filho deste solo; a última coisa que ele conseguiu lembrar foi aquela estrofe do hino nacional que ouvira na sua chegada a Porto Alegre, vinte e tantos ano antes: "Dos filhos deste solo és mãe gentil..."