Pois o Getúlio era lá do Alegrete, índio velho, cabelo preto, pêlo duro; tinha um tio açoriano e o avô materno era castelhano das bandas da República Oriental. A mãe tinha cruza com guarani. O pai, homem de poucas palavra, era lá de São Borja, não muito longe no mapa, mas a alguns dia de cavalo. Tinha ainda um tio que dizia ser bisneto de um jesuíta das Missões. O Getúlio achava que não podia ser bisneto, havia de ser no mínimo o tataraneto, mas não importava. Era pêlo duro dos quatro costado. Nasceu no mesmo dia em que Getúlio Vargas, traído pelos seus assessor e acusado pelos capacho do imperialismo, meteu a bala no coração, saiu da vida e entrou para a história. Daí o seu nome de batismo.
Como todos os do seu tempo no Alegrete, o Getúlio morava na estância, e começou a trabalhar cedo. Não era um sujeito de muitas letra, mas de burro não tinha nada. Sabia das coisa. Não usava o "s" no fim das palavra, pois índio velho não desperdiça cuspe em bobagem. A professora, que ensinava nas fazenda, logo percebeu a teimosia do piá, e deixou por isso mesmo.
Com 10 anos viu o golpe, Brizola e Jango no exílio, o resto tudo preso ou morto, mas não entendeu muita coisa. Foi a única vez que viu seu pai chorar. A mãe não, esta chorava com freqüência, como era normal com as mulher. Também, prá que tanto filho! Mais tarde entendeu como é que os filho nascia, e viu que era mais difícil evitá-los do que pensava quando era piá.
Sempre na estância, acabou casando e tendo 3 filho, que até hoje estão por aí, pela vida afora. Nem ficaram sabendo do seu passamento.
Foi só nos ano 80, quando a fome chegou no campo, que o Getúlio foi embora. Crise braba aquela, mais feia que paraguaio baleado. O homi pegou seus traste e se mandou. Peleou, peleou, e acabou dando com os costado em Porto Alegre bem no dia do comício pelas Diretas, ali na frente da Prefeitura. Era abril de 1984; os doutor engravatado no palanque, aquele povaréu cheio das esperança, e ele ali, sem entender chongas nenhuma. Só reconheceu o Brizola, os outros ele não sabia quem eram. Ficou ouvindo aqueles 200 mil vivente cantando o hino nacional: "Dos filhos desta terra és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!"
Dormiu na praça, era uma noite agradável. Acabou se juntando com uma turma que vivia pelas rua mesmo, às vez achavam algum abrigo ou albergue. Na época, eram poucos os morador de rua, e não era tão ruim.
Pois agora tava lá o Getúlio, guardador de carro na volta do Gasômetro, um dos pouco sem passagem na polícia. As companhia andavam complicada, tinha muito cheirador de cola, e agora o crack. Os piá ficavam alucinado por qualquer merda. E agressivos. E tinha piá chapado aos monte, cada dia tinha mais guri novo nas rua. Esses guri nem prá catar bosta servia...
Seu único vício era a cachaça. Não tomava na guampa, aqui não tinha esses luxo. Era no bico da garrafa mesmo. Não dá prá morar na rua sem molhar o bico. Dói tudo, aqui não tinha as erva que ele tomava quando era guri. Mesmo que tivesse, ele não sabia, não entendia dessas coisa, isto era assunto de mulher, e mulher não tinha nas rua. Ou tinha, mas as china queriam a grana dos otário, ninguém tava aí prás dor de rim dele, ou prás cólica de fígado. Então, só a pura, que também aliviava a fome e esquentava nas noite gelada.
Uma da madrugada. Por mais que ele tentasse levantar prá mijar, as coisa giravam, será que foi cachaça demais? Não tinha bebido mais que nos outros dia, mas sabia que não tava bem. Acabou se mijando nas calça mesmo, não por porquice, apenas não conseguia se mexer. A dor agora era insuportável, a pinga já não resolvia. As coisa agora não giravam mais, mas tava tudo saindo de foco, ficando mais longe, cada vez mais longe e mais apagado. Deitado ali na mesma calçada de sempre, quase não ouvia o ônibus que passava a metro e meio da sua cabeça. O Getúlio véio babava feito boi com aftosa.
Lá jazia o homem, pária da sociedade, um dos modernamente chamado de "excluídos". Não era bandido, apenas não tinha nada. Não era vagabundo, só não tinha emprego. Todas aquelas lei, todos aqueles direito, as salvaguarda constitucional, tudo aquilo não servia para nada. Tentou impetrar um mandado de segurança contra a fome. Nada. Tudo aquilo não alcança o mundo real.
E o silêncio foi tomando conta, o silêncio derradeiro do filho deste solo; a última coisa que ele conseguiu lembrar foi aquela estrofe do hino nacional que ouvira na sua chegada a Porto Alegre, vinte e tantos ano antes: "Dos filhos deste solo és mãe gentil..."
Blog do Godofredo
Confesso que jamais tive, em toda a vida, um único pensamento politicamente correto. A tal correção política, que eu prefiro chamar de corretagem da politicalha, nada mais é do que a hipocrisia declarada e sem rodeios, o racismo disfarçado de tolerância, a cretinice assumida e a mentira conveniente.
Querido leitor, se você tiver alguma contribuição, por favor, este Blog conta com a sua ajuda. Só não vale chinelagem, como chamar alguém de viado ou vagabunda, nem manifestações racistas, nem pagode.
Ajude-me a desmascarar esta gentalha!
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